Quando tinha apenas 10 anos de idade, Flaviane Ramalho não imaginava que as tardes acompanhando o irmão nos encontros do Grupo Escoteiro Centro América (GECA), em Cuiabá, fariam parte de uma transformação na história do Movimento Escoteiro em Mato Grosso.
Na época, seu irmão, hoje coronel Ramalho, já participava das atividades escoteiras realizadas no Sesc do Porto. Como a família precisava acompanhar a rotina dos filhos, Flaviane e sua irmã Flávia, que atualmente também é coronel da Polícia Militar, passaram a frequentar o ambiente escoteiro junto com o irmão.

A presença das duas meninas, inicialmente apenas como observadoras, acabou marcando o início de uma nova fase para o movimento no Estado. Naquele período, o grupo ainda não possuía participação feminina infantojuvenil. Mas Flaviane queria mais do que assistir. Ela passou a questionar os chefes escoteiros sobre a possibilidade de as meninas também participarem das atividades, defendendo que elas tinham a mesma capacidade dos meninos para enfrentar desafios, aprender e contribuir com o movimento.
“Eu via meu irmão participando, aprendendo, fazendo atividades, acampamentos e desafios, e pensava: por que nós não podemos fazer também? Eu acreditava que meninas e meninos tinham as mesmas condições de aprender, liderar e servir”, relembra Flaviane.
A insistência abriu caminho para uma mudança histórica.

Gradualmente, Flaviane, sua irmã Flávia e outras meninas passaram a integrar o Movimento Escoteiro em Mato Grosso. Em 1992, ela realizou sua Promessa Escoteira e tornou-se a primeira monitora da primeira patrulha feminina do primeiro grupo escoteiro do Estado.
“Naquele momento nós não tínhamos a dimensão do que aquilo representava. Éramos meninas querendo participar de algo que acreditávamos. Hoje vejo que aquela conquista ajudou a abrir portas para muitas outras jovens que vieram depois.”
Trajetória de liderança

A partir daquela experiência, o escotismo passou a fazer parte da vida de Flaviane por mais de três décadas.
Durante sua trajetória, ela atuou como escoteira, guia, pioneira, escotista, dirigente e voluntária. Passou pelo Grupo Escoteiro Centro América, integrou o Grupo Escoteiro Pascoal Moreira Cabral durante o Ramo Pioneiro e, posteriormente, retornou ao GECA como membro adulto voluntário. Também fez parte da diretoria do Grupo Escoteiro Centro América, sendo a primeira mulher a ocupar uma função na direção do primeiro grupo escoteiro de Mato Grosso. Depois de estabelecer residência em Sapezal, continuou sua atuação voluntária no Grupo Escoteiro Utiariti, contribuindo para a formação de crianças, adolescentes e jovens.

Sua dedicação também alcançou a estrutura regional e nacional do movimento. Durante dois mandatos, participou da Diretoria da Região Escoteira de Mato Grosso e integrou a área jurídica nacional da União dos Escoteiros do Brasil (UEB), colaborando com sua formação profissional como advogada. Em âmbito internacional, participou da iniciativa Mensageiros da Paz, voltada ao desenvolvimento de projetos sociais, ações comunitárias e promoção da cultura de paz.
Valores
Para Flaviane, o escotismo representa muito mais do que uma fase da infância ou juventude. Segundo ela, os ensinamentos recebidos no movimento ajudaram a formar sua visão sobre responsabilidade, liderança e participação na sociedade. “Foi dentro do escotismo que aprendi que liderança significa servir. Aprendi valores como honra, disciplina, lealdade, responsabilidade, respeito ao próximo e compromisso com a comunidade. Esses princípios fizeram parte da minha formação e continuam presentes em todas as áreas da minha vida.”
Conhecida nas redes sociais como Flaviane Bolsonaro, a advogada especialista em Direito Agrário vive atualmente um novo momento de sua trajetória. Filiada ao Partido Novo e pré-candidata a deputada estadual por Mato Grosso, ela afirma que os valores aprendidos no movimento influenciaram sua forma de compreender o papel de um líder.
“O escotismo me ensinou que uma pessoa só lidera verdadeiramente quando está disposta a servir. Esse conceito acompanha minhas escolhas pessoais, profissionais e também minha visão sobre a vida pública.”
Segundo ela, a decisão de ingressar na política está ligada à vontade de contribuir com a sociedade a partir dos princípios que aprendeu desde criança.
“Antes de qualquer atividade profissional ou desafio que eu tenha enfrentado, fui uma criança que aprendeu dentro do escotismo a importância da cidadania, do trabalho em equipe e da responsabilidade com o próximo.”

Projeto
Agora, Flaviane une sua história pessoal à missão de preservar a memória do Movimento Escoteiro em Mato Grosso.
Ao lado do chefe escoteiro Oriel Aquino, que acompanha sua trajetória há mais de 30 anos e é considerado uma das referências históricas do movimento no Estado, ela iniciou um projeto para reunir documentos, fotografias, relatos e registros sobre a construção do escotismo mato-grossense.
A proposta é recuperar histórias dos primeiros grupos escoteiros, registrar a participação dos pioneiros, contar a chegada das primeiras meninas ao movimento e preservar a memória de voluntários que dedicaram parte da vida à formação de jovens.
“Existem histórias que estão guardadas apenas na memória das pessoas que viveram aquele período. O chefe Oriel tem um acervo humano muito valioso, porque ele participou da construção dessa história. Precisamos registrar isso para que as próximas gerações conheçam esse legado.”
Segundo Flaviane, o projeto não representa apenas um resgate pessoal, mas uma homenagem a todos os voluntários que ajudaram a transformar vidas.
“Essa história não pertence a uma pessoa. Ela pertence a todos que colocaram tempo, dedicação e amor no escotismo. São homens e mulheres que ajudaram a formar cidadãos e que merecem ter esse trabalho reconhecido.”
Uma história que continua inspirando
Considerado um dos maiores movimentos educacionais infantojuvenis do mundo, o escotismo trabalha valores como cidadania, solidariedade, liderança, disciplina, respeito à natureza e serviço voluntário. Ao longo de mais de um século de existência, milhões de crianças e jovens passaram pelo movimento em diferentes países, construindo experiências que influenciaram suas trajetórias pessoais e profissionais.
Para Flaviane, preservar essa memória em Mato Grosso é garantir que novas gerações conheçam a força transformadora do escotismo.
“O maior legado do escotismo é ensinar que cada pessoa pode contribuir para melhorar a realidade ao seu redor. Foi isso que aprendi quando ainda era uma menina acompanhando meu irmão. Hoje, décadas depois, quero ajudar a garantir que essa história continue viva.”



































